Lideranças da Guiné-Bissau e do Território Quilombola Kalunga compartilham saberes que atravessam o Atlântico
Durante quatro dias, agricultoras, lideranças comunitárias, pesquisadores, professores e estudantes do Brasil e da Guiné-Bissau compartilharam experiências sobre agroecologia, segurança alimentar e nutricional, e ancestralidade na Comunidade Quilombola Kalunga Engenho II, em Cavalcante (GO)

Há milhares de quilômetros entre a Guiné-Bissau, na África Ocidental, e o Território Quilombola Kalunga, no Cerrado goiano. Ainda assim, bastaram quatro dias de convivência para que comunidades separadas pelo Oceano Atlântico reconhecessem modos de cultivar, cozinhar, celebrar, transmitir conhecimentos e construir relações com a terra.
Entre os dias 23 e 26 de junho, a Comunidade Quilombola Kalunga Engenho II, em Cavalcante (GO), recebeu o intercâmbio “Diálogos e Saberes Ancestrais: Caminhos entre Guiné-Bissau e Brasil”, reunindo agricultoras, lideranças comunitárias, pesquisadores, professoras, estudantes e representantes de organizações brasileiras e guineenses.
A programação teve início em Brasília, com visitas institucionais à Agência Brasileira de Cooperação (ABC), vinculada ao Ministério das Relações Exteriores, e ao Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

Em seguida, a delegação seguiu para Cavalcante, onde foi recebida na Casa Memória da Mulher Kalunga antes do início das atividades no território.

Durante os quatro dias seguintes, os encontros aconteceram nas rodas de conversa, nas roças, nos quintais, nas trilhas, ao redor da fogueira e da mesa. E, pouco a pouco, aquilo que inicialmente poderia ser entendido como distância começou também a revelar conexões.
No Engenho II, a agenda começou com uma roda de abertura e uma mística no Barracão Comunitário, reunindo a professora Jaqueline Sgarbi Santos; Adriano Paulinho da Silva, presidente da Associação Kalunga Comunitária do Engenho II (AKCE); as lideranças Dominga Natália Moreira dos Santos Rosa e Jorge Moreira de Oliveira; e a comunicadora Alciléia Torres. A conversa abriu os caminhos para os dias seguintes, trazendo para o centro da roda reflexões sobre produção e alimentação, organização política, cultura e as relações entre mulheres, gênero e alimentação.
Na roda, cada pessoa pôde se apresentar e compartilhar um objeto que simbolizava o que levava para aquele encontro. O momento abriu espaço para que histórias, sentimentos e expectativas começassem a circular entre o grupo, dando início a uma aproximação que, para a liderança quilombola Dominga Natália, também se construiu pela afetividade.

“Foi um momento de muita construção, e que seja o primeiro de vários. Foi a primeira vez que recebemos um grupo desse tamanho, nessa proporção e com esse objetivo. A gente sente essa conectividade, a gente se identifica umas com as outras. E o que mais me contagia é ver o quanto a afetividade nos conecta, seja com a alimentação, com o ser, com o ambiente, com as realizações.” | Dominga Natália Moreira dos Santos Rosa
A ciência que nasce dos territórios

O intercâmbio integra o projeto Ecossistema de Tecnologias Socioterritoriais Afro-Brasileiras em Agroecologia e Segurança Alimentar e Nutricional, coordenado pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), em parceria com a Universidade Federal de Goiás (UFG) e com apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, por meio da Secretaria de Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento Social.
A iniciativa busca fortalecer a cooperação entre instituições de ensino, comunidades tradicionais e países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), aproximando experiências e conhecimentos construídos em diferentes contextos.
Para a coordenadora geral do projeto, Jaqueline Sgarbi Santos, professora da UNILAB, o encontro também revelou conexões entre experiências e conhecimentos que permanecem vivos nas comunidades.

“O que define esses dias é emoção. As mulheres conseguiram se reconhecer nas formas de produzir os alimentos, no plantio, na organização da comunidade. É aquela visão de que o futuro é ancestral. E nós estamos tendo a oportunidade de aprender com essas comunidades a partir das suas vivências, dos seus modos de vida e dos saberes que praticam e continuam praticando, graças ao seu papel de resistência e ao desejo de manter a terra, o território e suas famílias nesse espaço que sempre foi ancestral.” | Jaqueline Sgarbi Santos.
Essa relação ancestral também se conecta a uma trajetória de pesquisa construída entre a comunidade e a universidade. Há quatro anos, Ana Paula Moreira, estudante de Agronomia da UFG e natural do Engenho II, desenvolve, ao lado da professora Fabiana Thomé da Cruz, pesquisas sobre as roças de toco, prática agrícola tradicional realizada por sua família há gerações.
Para Fabiana, compreender as roças de toco passa também por reconhecer a complexidade dos conhecimentos construídos e transmitidos no próprio território, que envolvem formas de produzir alimentos, manejar a terra e estabelecer relações com a natureza.

“Existe aqui uma ciência produzida no território. Não é uma ciência que nasce na universidade, mas uma ciência que se faz aqui, mobilizando conhecimentos que permitem produzir alimentos respeitando a natureza. São conhecimentos construídos e transmitidos ao longo de gerações, que mostram outras formas de produzir, de manejar a terra e de se relacionar com o território.” | Fabiana Thomé da Cruz
Para a estudante Ana Paula, o intercâmbio também evidenciou trocas entre conhecimentos e práticas construídas em contextos separados pela distância.
“Quando a gente consegue trazer a universidade para dentro da comunidade e também levar para a universidade aquilo que é produzido aqui, a gente começa a mostrar que o conhecimento não está só dentro da academia. E esse intercâmbio também mostra isso. É muito legal pensar que a gente está tão longe, mas tão próximo ao mesmo tempo. A gente tem essa conexão forte de saberes, de técnicas e, principalmente, de resistência.” | Ana Paula Moreira
O que se reconhece pelo percurso

As mulheres agricultoras estiveram no centro das trocas construídas ao longo dos quatro dias. Vindas de diferentes regiões da Guiné-Bissau, elas encontraram modos de cultivar, alimentos e práticas que dialogavam com aquilo que conheciam em suas próprias comunidades. Em outros momentos, eram justamente as diferenças que despertavam a curiosidade e transformavam o caminho em espaço de aprendizado.
Para M’Buldé Na Baa, agricultora da comunidade de Cabudu, na região de Mata de Cantanhez, a experiência também foi marcada pela emoção de conhecer o Território Quilombola Kalunga e a história de quem vive nele.
“Fiquei muito feliz com a história que o Jorge contou, explicando como se originou o quilombo. Fiquei triste pela história, mas também pela coragem, porque os tataravós sabiam da importância de ter o território, de ter o lugar e de estar aqui. E isso está valendo até hoje.”
Durante as caminhadas, M’Buldé também reconheceu no Cerrado elementos que remetiam às paisagens e aos cultivos de sua comunidade. Algumas pareciam familiares à primeira vista, mas revelavam diferenças quando observadas mais de perto.
Foi assim com as árvores, as palmeiras e também com os alimentos encontrados pelo caminho. Ao conhecer o quiabo cultivado no território, ela percebeu que também o produziam em sua comunidade, embora em uma variedade diferente: o quiabo encontrado no Engenho II era mais comprido, enquanto aquele que conhecia na Guiné-Bissau era mais curto.
A curiosidade diante da diferença se transformou também em possibilidade de troca. Antes de seguir viagem, M’Buldé separou algumas sementes para levar consigo e experimentar o cultivo quando retornasse à sua comunidade.
Em gestos como esse, o intercâmbio começava a ganhar outros sentidos: não apenas reconhecer práticas familiares, mas observar diferenças, compartilhar conhecimentos e levar consigo novas possibilidades para experimentar do outro lado do Atlântico.
Os caminhos que também ensinam
Um dos momentos centrais da programação foi a vivência da Roça de Toco, realizada por caminhos historicamente percorridos por gerações de moradores do Engenho II para chegar às áreas de cultivo.
A atividade foi conduzida e acompanhada por Jorge Moreira de Oliveira, Maria Aparecida Rodrigues Marques, Valdivino Maia e Lourença dos Santos Rosa, moradores da comunidade que compartilharam conhecimentos sobre as roças, as plantas, os períodos de plantio e a relação construída com o território.

Para a liderança quilombola Jorge Moreira de Oliveira, essas aproximações também apareceram nas conversas mais simples ao longo da caminhada, quando práticas realizadas há gerações no Engenho II encontravam correspondências do outro lado do Atlântico.
“A gente falou um pouco de como produz, da quantidade de grãos que coloca em cada cova, dos meses de plantio de cada cultura, do arroz, do milho, do feijão. E elas também acabaram falando para a gente que não tem muita diferença do nosso modelo para o modelo delas. Talvez a gente esteja aqui para ensinar, mas também está aqui para aprender. E, para a gente, isso só nos enriquece.” | Jorge Moreira de Oliveira
A reciprocidade apontada por Jorge também apareceu no olhar de quem percorria o território pela primeira vez. Micrela Daniel Fernandes, guineense e estudante de Agronomia da Unilab, encontrou nas explicações compartilhadas durante a caminhada conhecimentos que dialogavam diretamente com aquilo que estuda na universidade.
“Vendo o senhor Jorge falar, eu estou estudando Agronomia e consigo perceber que o que eu estou estudando na academia o senhor Jorge já sabe. Ele é profissional, assim posso dizer. Aqui eu consigo notar que esse conhecimento é passado de geração para geração. Eu sabia que existiam conhecimentos empíricos, mas o senhor Jorge foi além, e isso me impactou.” | Micrela Daniel Fernandes
A vivência passou ainda pela Cachoeira Candaru, onde as mulheres guineenses tomaram banho de cachoeira pela primeira vez.
Ao longo da programação, o grupo também percorreu quintais da comunidade, conheceu a Lojinha Kalunga no Centro de Atendimento ao Turista (CAT), participou de conversas ao redor da fogueira sobre festividades, agricultura e alimentação e acompanhou manifestações culturais, como a dança Sussa Kalunga e também trouxeram suas próprias apresentações. Como a dança da Tina, uma manifestação cultural tradicional da Guiné-Bissau centrada no uso da tina (ou tambor de água), destacando-se pela forte ligação ao universo feminino, ao ritmo comunitário e à expressão de sentimentos sociais.

Aquilo que a distância não apagou
As trocas percebidas durante o intercâmbio não estavam apenas nas formas de cultivar a terra.
Para Micrela, chegar ao Território Kalunga despertou lembranças construídas ainda na infância, a partir das histórias compartilhadas pelas mulheres mais velhas de sua família.
“As atividades trazem aquela lembrança da avó, da tía, que contava histórias das tradições ancestrais. Ouvindo as lideranças falando, me deu aquela lembrança da minha terra, das culturas, do cultivo, de como é que são os saberes tradicionais.” | Micrela Daniel Fernandes
Para Leodinilde Pinto Caetano, agrônoma guineense e assistente de projetos da organização Tiniguena, a troca também passou pelo encontro com a história de luta, resistência e organização do povo Kalunga. Ao conhecer mais sobre os caminhos percorridos pela comunidade para permanecer no território e construir estratégias de fortalecimento, ela encontrou experiências que pretende levar consigo para além dos dias de intercâmbio.
“Aqui é uma troca, mas parece que eu só estou ganhando com as informações, com as lutas, as estratégias, a emancipação do povo quilombola. Está sendo muito interessante conhecer essa história de luta e perceber como isso ajudou também na organização pela terra. Eu só tenho a ganhar com as estratégias, a resistência e a resiliência desse povo. Já tenho experiências que posso partilhar depois e também encorajar outras pessoas.” | Leodinilde Pinto Caetano
Para quem recebeu a delegação, o encontro também provocou reflexões sobre as distâncias que existem não apenas entre países separados pelo Atlântico, mas dentro do próprio Território Kalunga. Para Natália, participar do intercâmbio reforçou a importância de criar mais espaços de encontro e fortalecer vínculos que, muitas vezes, são atravessados pelas distâncias e pelas próprias necessidades da vida.
“Estar aqui nos ensina também o quanto o nosso território é grandioso e como, muitas vezes, a gente não consegue ter contato com nossos próprios familiares dentro do território, porque não consegue chegar. A gente precisa se conectar mais. Mesmo que tenham as festas, que são nossos pontos de encontro, ainda assim é pouco tempo para a gente se encontrar. Os encontros nos fortalecem. A gente precisa se encontrar mais. E esse intercâmbio me despertou isso.” | Dominga Natália Moreira dos Santos Rosa
O que cada uma leva de volta
Se parte do intercâmbio aconteceu no reconhecimento de práticas já conhecidas, outra parte surgiu justamente na descoberta de conhecimentos que poderiam ser experimentados de outras maneiras.

Maimuna Augusto Cunra observou, por exemplo, uma forma diferente de lidar com o milho antes da colheita.
“Aprendemos como vocês fazem com o milho, quebram e deixam a cabeça para baixo para secar e depois tirar do campo. Nós tiramos do campo antes de terminar de secar e, às vezes, as sementes não ficam boas. Agora vamos tentar fazer isso lá. Aumentamos os nossos conhecimentos, na forma de trabalhar, de produzir e também de colaborar com outras pessoas.” | Maimuna Augusto Cunra
Mas o que Maimuna levou da experiência foi além das práticas de produção. Ao conhecer a organização da comunidade e acompanhar pessoas construindo possibilidades de vida e trabalho dentro do próprio território, ela passou a olhar de outra maneira para o futuro que imaginava para si dentro da própria comunidade.
“Na minha região, às vezes fico assim sem ânimo, pensando que não vai dar certo, que preciso ir para a cidade. Mas essa viagem mudou toda a minha cabeça. A comunidade aqui está muito bem organizada e eu fiquei muito feliz com tudo o que conheci.” | Maimuna Augusto Cunra
Para Alapaz Mam Tchongo, agricultora da região de Quinara, o retorno também carrega a responsabilidade de fazer com que aquilo que conheceu durante o intercâmbio alcance outras mulheres. Ao longo das vivências, ela observou práticas de cultivo e formas de organização que pretende compartilhar quando estiver novamente em sua comunidade.

“Foi um momento de aprendizado. Eu vim também para ver o que vocês estão fazendo e o que podemos melhorar. Vou levar essas novidades para as mulheres da minha comunidade, para vermos também o que podemos melhorar e o que podemos aprender com o trabalho que conhecemos aqui.” | Alapaz Mam Tchongo
O que Maimuna e Alapaz levam consigo ganha a possibilidade de continuar circulando. Nas práticas que poderão ser experimentadas de outras maneiras, nas sementes que seguem viagem e nos conhecimentos que serão compartilhados com outras mulheres, famílias e comunidades, o intercâmbio encontra formas de continuar mesmo depois do retorno à Guiné-Bissau.
Da Guiné-Bissau para o Território Kalunga
A troca também abriu espaço para que a delegação guineense compartilhasse conhecimentos, experiências e diferentes realidades de suas comunidades.
Durante o Dia da Guiné-Bissau no Engenho II, Leodinilde Pinto Caetano, Maimuna Augusto Cunra, Alapaz Mam Tchongo, M’Buldé Na Baa, Micrela Daniel Fernandes e Sanhá João Correia conduziram um momento de partilha sobre aspectos produtivos, políticos, culturais e de gênero do país, trazendo para a roda experiências vividas em diferentes regiões e comunidades da Guiné-Bissau.

Mulheres Kalunga e outros moradores da comunidade participaram da roda, fizeram perguntas e também compartilharam suas próprias vivências. Um dos points que mais mobilizou a conversa foi o papel das mulheres na organização das comunidades e na produção de alimentos, assim como a falta de reconhecimento do trabalho que desempenham. As experiências compartilhadas na Guiné-Bissau encontraram questões também vividas pelas mulheres quilombolas, abrindo espaço para reflexões sobre protagonismo, participação e os desafios enfrentados em diferentes contextos.
A alimentação também ocupou um lugar central nessa construção coletiva
Durante os dias de intercâmbio, a delegação conheceu a diversidade da gastronomia Kalunga por meio de refeições preparadas na própria comunidade. No encerramento, foi a vez das convidadas compartilharem sabores, ingredientes e memórias de seu país.

O jantar reuniu receitas preparadas coletivamente com ingredientes e temperos trazidos da Guiné-Bissau. Entre os alimentos compartilhados estavam peixe, arroz, acompanhamentos tradicionais e sucos, como de baobá.
Para Maimuna, ver a comida preparada por elas sendo recebida por tantas pessoas também se tornou parte da memória daquele encontro.

“Eu fiquei muito feliz, porque a comida, todo mundo gostou da comida. Então isso me faz ficar feliz.” | Maimuna Augusto Cunra
Outras formas de aprender com a terra

A programação incluiu ainda uma oficina de geotintas com crianças Kalunga, conduzida pela professora Susana Churka Blum, do Projeto Solo Vivo, e por Simão Mário Agostinho Cariege, graduando em Agronomia da Unilab e natural de Angola.
Utilizando diferentes tonalidades dos solos do Cerrado, crianças e participantes produziram pinturas e desenhos coletivos, transformando a terra em tinta e expressão artística.
A experiência se somou às diferentes formas de conhecimento compartilhadas durante os quatro dias, mostrando que a relação com o território também se constrói pela experimentação, pela criatividade e pela transmissão dos saberes entre gerações.
O que permanece depois do encontro
Na manhã do último dia, os participantes se reuniram para uma roda de avaliação e despedida. Uma pergunta conduziu o encerramento: “O que eu deixo e o que eu levo comigo?”.
As respostas vieram carregadas daquilo que os quatro dias haviam construído. Falou-se de pertencimento, alegria, aprendizado, continuidade e do desejo de que aquele encontro não terminasse ali. De levar novos conhecimentos, mas também de voltar para casa olhando de outra maneira para aquilo que já se sabia. De deixar um pouco de si e seguir carregando um pouco de cada pessoa encontrada pelo caminho.
De muitas formas, algumas dessas respostas já haviam aparecido ao longo dos dias. Estavam nas sementes de quiabo que atravessariam o Atlântico. Na nova maneira de secar o milho que seria experimentada na Guiné-Bissau. Nos conhecimentos sobre a roça que encontraram correspondências do outro lado do oceano. Nas histórias das avós e das tias despertadas pela memória. Na comida compartilhada. E na percepção de que aquilo que se ensina dentro das universidades também está, há gerações, nas mãos, na memória e nas práticas de quem vive e cuida dos territórios.

Cada pessoa seguiu dali levando algo diferente. Para Maimuna, a viagem abriu novas possibilidades de imaginar o futuro dentro da própria comunidade. Para Alapaz, os aprendizados seguiriam viagem para serem compartilhados com outras mulheres. M’Buldé levaria sementes e novos conhecimentos para experimentar em sua comunidade. Leodinilde seguiria com experiências que pretende partilhar e usar para encorajar outras pessoas.
E quem permaneceu no Território Quilombola Kalunga também ficou com aquilo que o encontro deixou: novas relações, aprendizados, memórias e a vontade de continuar construindo caminhos que aproximam pessoas e conhecimentos.
Há diferentes paisagens, espécies, histórias, comunidades e formas de viver entre a Guiné-Bissau e o Território Quilombola Kalunga. Mais há também conhecimentos e memórias que atravessaram gerações e que, mesmo transformados pelo tempo e pela distância, continuam encontrando formas de se aproximar e dialogar.
Talvez seja por isso que, ao refletir sobre tudo o que aqueles dias haviam colocado em movimento, Ana Paula Moreira tenha resumido em poucas palavras um sentimento que atravessou o encontro:
“Essa conexão nunca se apagou. Ela ainda existe.”
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